CCVF. Espetáculo «Noite» sobe ao palco do Grande Auditório este sábado

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A partir das 22 horas

«Noite», a mais recente criação da Circolando, é o nome do espetáculo multidisciplinar de dança, que será apresentado este sábado, a partir das 22 horas, no palco do Grande Auditório do Centro Cultural Vila Flor.

A peça mistura o teatro e a dança para falar de um passeio pelos confins da noite, a todos os recantos que ela guarda. A inspiração nasceu no desassossego dos poemas de Al Berto, uma referência para a companhia, mas a partir daí André Braga e Cláudia Figueiredo viajaram pela sua própria escuridão. Porque é à noite que a luz parece mais intensa.

A Circolando traz ao Centro Cultural Vila Flor a noite de três intérpretes, o caminho escuro e excessivo por onde, por vezes, nos aventuramos e consumimos depressa, até ao esgotamento, com a pressa de quem foge da normalidade da vida que mora na manhã seguinte. Partindo de um trio de homens – André Braga, Paulo Mota e Ricardo Machado – o espetáculo foi inicialmente inspirado no autor Al Berto, o poeta que encontrou na noite a verdade da escrita. Depois, André Braga e Cláudia Figueiredo sentiram a absoluta necessidade de se libertarem dele e seguirem mais soltos o seu próprio mapa de áreas de pesquisa. “Noite” é outro passo nos territórios da escuridão em busca de novas claridades. É na escuridão que reside um estar desconhecido onde pode surgir puro o ímpeto criativo. Entre o medo e a paixão, a desolação do subúrbio e a alucinação luminescente. Velocidade, exaustão e nada.

Nesta “Noite”, os atores vagueiam pelos caminhos mais escuros onde, por vezes, a luz (quando aparece) é mais forte, rasgando o negro em clarões violentos que quase encandeiam. E é nessa ida ao limite que a noite guarda que por vezes surge o rasgo criativo. “É uma coisa que associamos à noite: ires ao teu limite, ires ao outro lado. E a partir do momento em que pomos cem pneus em palco é impossível não ficarmos rebentados. Mas aguentamos – aguentamos as duas horas. E acho que mais do que a energia do momento da exaustão nós aproveitamos a energia do momento a seguir, em que já não estás em esforço mas o ritmo cardíaco continua acelerado”, explica André.

A peça desenrola-se no palco, para onde a plateia é também chamada a assistir ao espetáculo, criando uma espécie de arena, onde os atores estão completamente desprotegidos, em absoluta proximidade com o público. “Havia uma ideia bastante presente nesta peça que é a ideia de arena, a arena como lugar de exposição e como lugar de confronto e daí partiremos nós próprios para uma ideia de estar nesse lugar, que é uma arena e que tem frentes para tudo quanto é lado. Esta solução para nós é interessante porque nos permite ter bastantes pessoas a assistir e, ao mesmo tempo, muito próximas de nós”, justifica André Braga.

Em jeito de conclusão, André Braga resume de onde veio esta revolta que acomete os filhos da noite: “Acho que esta raiva já está há algum tempo connosco. Andamos todos um bocadinho irritados com muita coisa que se passa fora da sala de ensaios – dos refugiados à Síria, do nosso Governo à nossa cidade. Mas sim, há muita revolta na noite – a noite é selvagem, tanto na floresta como na cidade, tanto no mar como no espaço interestelar. É a revolta do relâmpago, do vulcão e da terra a explodir, também, que aliás vamos querer continuar a explorar”. Mergulhemos nos subterrâneos da noite à espera dos clarões mais incandescentes que rasgam o regresso à alvorada.

[ Artigo originalmente publicado no dia 21.03.2016 e atualizado este sábado, 26.03.2016 ]